Caçoeira e insustentabilidade da pesca da lagosta
Edgard Patrício
[Jornal O Povo: 30 Abril 17h10min 2005]
Utilizar
ou não utilizar a caçoeira como apetrecho da pesca da lagosta? Esse é
um debate que está sendo travado entre aqueles que praticam a atividade
ou que lutam pela preservação do meio ambiente. O Instituto Terramar,
ONG de referência sobre as questões relacionadas ao ambiente costeiro,
expõe sua opinião sobre o assunto. O Terramar constata alguns
''argumentos falaciosos'' na tentativa de adiar novamente a proibição
do uso da caçoeira. E contextualiza a crise por que vem passando o
setor da pesca da lagosta, ancorada na ausência ou ineficiência de
mecanismos mais efetivos de gestão socioambiental da atividade, caso
dos instrumentos de cadastramento e licenciamento; e ausência de
condições de fiscalização da pesca predatória, passando por
indefinições sobre a legislação que normativa essa atividade.
Neste contexto, e para o Terramar, a liberação da
caçoeira não se constitui apenas em um demanda por tempo em benefício
do processo adaptativo dos pescadores e empresários, mas significa o
''aprofundamento da insustentabilidade da atividade'', acentuando o
grau de degradação do estoque. A médio prazo, um ''maior declínio da
produção, já profundamente sentido pelos pescadores artesanais e suas
famílias, não só no Ceará, mas em todo o Nordeste''. A origem desse
quadro, ainda segundo o Terramar, seria a ''ausência de vontade
política de nossos governantes nas mais diversas escalas: Federal,
Estadual e Municipal, aliado à falta de cooperação e responsabilidade
das empresas e armadores de pesca''.
E sobre o debate, o Terramar faz algumas
considerações. Explicita ''o absurdo de estarmos a poucos dias do
começo da pesca da lagosta, vendo ameaçada a implementação definitiva
da proibição do uso da caçoeira na pesca da lagosta'', posição
resultante de um processo amplo de reflexão e planejamento, ''em função
de interesses cuja lógica, mais uma vez, é a do lucro imediato''.
''Vale destacar que tais interesses têm se configurado em pressões de
algumas pessoas ligadas à Confederação dos Pescadores, empresários e
parte dos armadores de pesca, juntamente com alguns políticos, junto ao
Ministério do Meio Ambiente e à Secretaria Especial de Aqüicultura e
Pesca (SEAP)'.
O Brasil seria ''o único país que ainda permite na
sua legislação o uso da rede de caçoeira. Lembramos, ainda, que de
acordo com o princípio precautório do Código de Conduta para Pesca
Responsável da FAO (do qual o Brasil é signatário) devem ser tomadas
medidas preventivas em relação à sobrepesca dos recursos pesqueiros
para garantir a saúde dos estoques''. O Terramar também destaca alguns
aspectos que, pela sua percepção, reforçariam a posição contrária à
liberação da caçoeira. Entre eles: péssima qualidade da lagosta
brasileira pescada através da caçoeira, que vem provocando uma imagem
negativa do produto no mercado internacional; impossibilidade de
devolver ao mar as lagostas miúdas capturadas nas redes de pesca,
porque na maioria dos casos quando são recolhidas já estão mortas.
A pesca da lagosta com caçoeira ainda permitiria
existência de fauna acompanhante na rede, incluindo grandes quantidades
de peixe de valor nutritivo e comercial, também em sua maioria já
deteriorados; alta mortalidade de tartarugas marinhas (espécies
ameaçadas de extinção); impacto destrutivo da rede no habitat da
lagosta; desgaste físico dos pescadores pelas altas horas de trabalho
se comparado com a pesca realizada com manzuá (covos); possível
colapso, a médio prazo, dos estoques de lagosta com as conseqüências
sociais e econômicas imagináveis, como quebra (financeira) da frota e
do parque industrial da pesca da lagosta, causando desemprego
generalizado.
|